Manifestações pelo país: como trabalhar o assunto nas escolas

Publicado em 01/07/2013

Um dos maiores erros da instituição escola em nosso país, ainda hoje, é supervalorizar conteúdos antigos e método de ensino tradicional, em suas maiorias bastante desestimulantes para os alunos.

Mas, para a escola fazer sentido para o aluno, o que poderia ser ensinado? E de que maneira?

Uma forma de começar a responder à essa questão seria observando de que maneira a escola relaciona o que ensina em sala de aula com o que o aluno vê acontecendo em seu cotidiano familiar e social.

Um exemplo simples, claro e atual: como os alunos, em suas diferentes faixas etárias e experiências de vida, estão entendendo as manifestações que tem acontecido diariamente em várias cidades do Brasil, neste mês de junho de 2013?

A “pedagogia da libertação”, criada e desenvolvida por Paulo Freire, grande educador brasileiro, é conhecida e pesquisada em diversas universidades ao redor do mundo. Mas, e no Brasil, ela tem sido utilizada? Como?

Esta pedagogia propõe uma educação crítica a serviço da transformação social e utiliza "temas geradores", ou seja, os alunos são alfabetizados com as palavras que usam no dia-a-dia, sempre associando o processo de alfabetização com a vida. Mas ela não termina quando acaba o processo de alfabetização e deve continuar norteando os educadores realmente interessados em pensar e viver a Educação de forma ampla e profunda.

Se utilizarmos outras visões, como a da Psicologia Clínica, por exemplo, veremos que, mesmo vivendo no mesmo meio social, cada indivíduo tem sua subjetividade, identidade e maneira pessoal de reagir ao mundo.

Já a Psicologia Social nos lembra que grande parte da própria subjetividade humana é formada pelo meio e cultura em que vive. Não é algo que simplesmente “vem de dentro”.

Pensando na Pedagogia Libertadora de Paulo Freire e no conhecimento da Psicologia Clínica e Social, entre outros saberes que ainda poderíamos acrescentar, estaríamos levando em conta todas as variáveis que formam o ser humano - a influência do meio, da cultura, da sociedade, da família, da escola, do momento histórico... -, percebendo que são muitas vezes complementares e não excludentes. Nesse caso, com o olhar aberto à complexidade humana, como a escola pode ajudar na descoberta e no desenvolvimento de seus alunos, preparando-os para viverem nesse mundo?

Lembremos que, para Paulo Freire, todos têm saberes. Diferentes entre si, mas igualmente saberes. Nesse caso, como podemos lidar com o aluno que ainda está formando sua personalidade básica – mesmo já tendo seus “saberes”... -, isto é, como podemos lidar com o aluno que é criança ou adolescente?

A subjetividade vai se formando ao mesmo tempo em que a necessidade de aprender a viver em sociedade. E a escola precisa trabalhar nessas duas vias e com a complexidade que cada uma delas traz. Importante que fique claro, para o aluno, que todos somos iguais enquanto raça humana – e essa é a única “raça” a qual nós, humanos, pertencemos – e que, ao mesmo tempo, todos somos diferentes, pois cada um é um e tem algo de original, único e particular para expressar no mundo. A escola tradicional costuma uniformizar tudo (não só vestimentas), reprimindo, nos alunos, muito do que poderia emergir de criativo. Nesse sentido, uma proposta libertadora e transformadora de educação teria muito mais dificuldade de se desenvolver. Portanto, para que a pedagogia proposta por Paulo Freire possa ser utilizada, a instituição escola precisa se comprometer com um novo projeto de educação. Esse é um ponto que não podemos esquecer.

Mas, voltando à questão inicial deste texto, como trabalhar com os alunos o que tem acontecido em nosso país, levando em conta que cada aluno é fruto de um meio social, cultural, histórico, econômico e, ao mesmo tempo, que cada um é capaz de trazer algo de novo ao mundo, criando, pensando, aprendendo, tentando, sem anular seu jeito próprio de ver o mundo e se sentir dentro dele? Como fazer isso? É possível?

Em primeiro lugar, como disse acima, a escola precisa comprometer-se com um modelo de educação transformadora. A seguir, precisamos levar informações básicas aos alunos. Sobre o que é plebiscito, por exemplo, palavra que tem sido repetida e, no entanto, que muitos alunos desconhecem.

Uma ótima forma de trabalhar questões políticas com os alunos é no momento de se votar para escolher o representante da turma. Que um número “x” de alunos possa se candidatar, falar de suas propostas, para, depois, os candidatos serem votados pela turma. Eleição direta, claro! É uma ótima chance de questionar com eles o que é “representar” um grupo.

Uma outra ideia prática, para trabalhar com alunos que ainda são crianças, é pedir que tragam notícias de jornal ou de internet que lhes chamaram a atenção em relação às manifestações. A partir daí, divididos em grupos, podem criar uma forma de apresentar ao resto da turma aquilo que cada um escolheu e mostrar como uniram aquelas percepções individuais em grupo, incluindo perguntas e dúvidas que tenham a respeito, mas chegando a uma produção coletiva, que pode ser expressa em desenhos, colagens, cartazes, expressão corporal, textos (de acordo com a produção possível a cada faixa etária), etc. Estaremos desenvolvendo, com isso, a capacidade de olhar pro que é individual – a visão de cada um e o motivo que o levou a escolher aquela notícia – e respeitar as diferenças que aí aparecem e, ao mesmo tempo, estaremos exercitando, com eles, um outro olhar também, para aquilo que é coletivo, isto é, que é comum a todo um grupo ali reunido. Da mesma forma que milhares de pessoas têm participado das manifestações e de suas reivindicações, eles, alunos, também possuem seus motivos pessoais, suas próprias opiniões ou indagações e, ao mesmo tempo, precisam saber agir em grupo, pensar coletivamente, procurar pontos em comum, a fim de equilibrar o “eu” e o “outro”, o indivíduo e a sociedade.

Com alunos que já são adolescentes, todas as sugestões acima também podem ser utilizadas, estimulando-os a serem autônomos e criativos, e, também, podemos utilizar debates de vários tipos, onde desenvolvam de forma verbal e/ou escrita as suas idéias, aprendendo, na prática, a como se colocar, questionar, negociar, conciliar, encontrar formas de se expressarem sem que precisem da anulação de qualquer indivíduo ou dos grupos. Descobrirão como é importante criar regras, para serem seguidas por todo o grupo, para que consiga realmente contar com a participação de todos, sem que uns intimidem os outros. Estarão, na prática, aprendendo um pouco sobre o que é fazer política, o que é participar, como descobrir e valorizar afinidades sem precisar anular completamente as individualidades para isso, entre outras propostas possíveis. Um grupo pode desenvolver mais a parte crítica, expondo as questões sobre as quais o povo tem reclamado nas ruas. Outro grupo pode exercitar como seria possível desenvolver aquelas críticas já passando para o “como” fazer, isto é, o grupo procuraria desenvolver a capacidade de propor soluções, indo além das reclamações e críticas.

Observar o que foi mais difícil ou mais fácil para cada aluno e para cada grupo e trabalhar essas observações com a turma depois, fazendo-os refletir sobre os desafios que encontramos tanto no momento da crítica quanto no momento da busca de solução para o que foi criticado, seria uma forma dinâmica e bastante prática para que começassem a se envolver e compreender de maneira mais ampla o que tem acontecido. E essa experiência poderia ser usada, depois, para pensarem juntos sobre a própria escola onde estudam, buscando sua melhoria.

Não são precisos discursos partidários, nem nada parecido, para podermos desenvolver, com eles, o que é mais importante, libertador e transformador nisso tudo: a CONSCIÊNCIA de que podemos ser sujeitos ativos, responsabilizando-nos e participando efetivamente das mudanças que almejamos para os problemas de nosso país.

Uma educação só pode ser libertadora, como pretendia Paulo Freire, se oferecer esse espaço LIVRE para as descobertas, dúvidas e construções dos próprios alunos, cada um e cada grupo de acordo com suas capacidades cognitivas, sociais e emocionais, dando espaço tanto para as subjetividades se expressarem quanto para o desafio maior de unir subjetividades em torno de afinidades, idéias comuns, aprendendo, assim, a ser um indivíduo e, ao mesmo tempo, aprendendo a assumir seu lugar na sociedade, como alguém capaz de enxergá-la, criticá-la, se unir com outros indivíduos e, a partir daí, começar a transformá-la.

Mas esses objetivos devem ser trabalhados ao longo de todo o ano letivo, através das atividades citadas acima e de várias outras – inclusive ouvindo as sugestões dos alunos sobre isso -, para que não sejam tratados apenas de forma temática ou imediatista, como se faz muito nas datas comemorativas em que acontecem as festividades anuais das escolas, por exemplo.

Quando as manifestações populares diminuírem, a escola deve deixar de tratar do assunto? Não. Discutindo os desdobramentos de tudo que aconteceu no país, a escola deve continuar desenvolvendo, a partir daí, o hábito de questionar, criticar, ouvir, aprender, ensinar, trocar, ser único e ser parte de uma coletividade ao mesmo tempo. E deve se comprometer a desenvolver tudo isso não só nos alunos, mas em todos aqueles que trabalham em Educação, já que esse é um aprendizado sem fim.

É trabalhoso, exige atenção e criatividade, mas, aí sim, conteúdos muito mais relevantes para a vida dos cidadãos estariam ocupando o merecido lugar de destaque nas escolas brasileiras.

Regina Milone.

Pedagoga – Orientadora Educacional -, Arteterapeuta e Psicóloga.

Rio de Janeiro, 28 de junho de 2013.

 

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