Psicologia & Educação

Síndrome de Burnout

Publicado em 06/03/2014

Nos consultórios de psicólogos e médicos é bastante comum observarmos pessoas que abrem mão de aspectos importantes de suas vidas para assegurar um lugar ao sol do trabalho, batalhando pela sobrevivência.

A articulação entre trabalho e saúde não é novidade; é foco de reflexão dos homens há séculos. Em 1844, Marx discutia a alienação do trabalho dizendo que o trabalhador “foge do trabalho como foge da peste”. O capitalismo que Marx viveu parece distante daquele que experimentamos hoje. O trabalho aparecia como fonte de esgotamento, de mortificação e de negação da condição de humanidade do trabalhador. As relações de trabalho no século XIX eram pouco regulamentadas, marcadas por extensas jornadas e péssimas condições de trabalho. No século XX, com o intenso processo de industrialização e avanço tecnológico, os modelos de gestão dos processos produtivos ficaram mais exigentes em termos da capacidade física e psíquica dos indivíduos. A partir do final dos anos 1960, a crescente automação do trabalho e os novos modelos de gerenciamento aliviaram as demandas quanto à capacidade física do trabalhador, mas também trouxe maiores exigências quanto às suas capacidades e habilidades psíquicas/emocionais.

A intensidade e a cronicidade dos estressores do sistema sócio-organizacional, as habilidades e competências individuais em lidar com tais situações e suas consequências propiciam que o trabalhador desenvolva reações de esgotamento laboral crônico.

Freudenberger, psicólogo alemão, educado nos Estados Unidos, escreveu no início de década de  1970 sobre tal condição chamando o conjunto de sinais de esgotamento como Síndrome de Burnout (Burn out em inglês significa combustão, queimar completamente). Burnout é assim um estado de esgotamento ou exaustão resultante de grande dedicação e esforço no trabalho no qual o indivíduo afasta ou deixa de lado as suas próprias necessidades.

A síndrome foi estudada especialmente em pessoas com atividades consideradas cuidadoras ou assistenciais, que exigem elevado investimento na relação interpessoal, como os profissionais da área da saúde e educação – ex: médicos, psicólogos, professores, enfermeiros.

De acordo com alguns autores, as ocupações assistenciais são as mais afetadas por conta do desgaste emocional, próprio do exercício da profissão, cujas atividades estão fundamentadas na filosofia humanística. Os profissionais passam longo tempo dedicado aos clientes/pacientes/alunos que frequentemente se encontram em situações dramáticas, gerando uma relação interpessoal provida de tensão emocional e frustração. A discrepância entre expectativas e a realidade também é outro colaborador para aumentar o estresse dos profissionais.

Hoje, contudo, entende-se que profissionais de outras áreas também podem ser acometidos por esse esgotamento identificado pela síndrome. As pesquisas demonstram que o burnout pode ocorrer em trabalhadores motivados, que reagem ao estresse laboral trabalhando além dos seus limites, até que entram em colapso.

Há 3 componentes multidimensionais que envolvem o Burnout: a) exaustão emocional (EE), b) despersonalização ou distanciamento afetivo (DE) e c) baixa realização profissional (RP):

a)  EE - exaustão emocional: situação em que os trabalhadores sentem que não podem dar mais de si mesmos em sentido afetivo. Percebem esgotada a energia e os recursos emocionais próprios, devido ao contato diário com os problemas. A exaustão emocional abrange sentimentos de desesperança, solidão, depressão, raiva, impaciência, irritabilidade, tensão, diminuição de empatia; sensação de baixa energia, fraqueza, preocupação; aumento da suscetibilidade para doenças, cefaleias, náuseas, tensão muscular, dor lombar ou cervical, distúrbios do sono.

b)  DE - despersonalização: desenvolvimento de sentimentos e atitudes negativas e de cinismo às pessoas destinatárias do trabalho (usuários/clientes); endurecimento afetivo, "coisificação" da relação. O distanciamento afetivo provoca a sensação de alienação em relação aos outros, sendo a presença destes muitas vezes desagradável e não desejada.

c)   RP - baixa realização profissional: falta de envolvimento pessoal no trabalho; tendência de uma "evolução negativa" no trabalho, afetando a habilidade para realização do trabalho e o atendimento, ou contato com as pessoas usuárias do trabalho, bem como com a organização. A baixa realização profissional ou baixa satisfação com o trabalho pode ser descrita como uma sensação de que muito pouco tem sido alcançado, e o que é realizado não tem valor.

Cuidar de si é a prioridade para aqueles que se encontram nesse quadro. Procurar um médico psiquiatra e um psicólogo são as primeiras providências a serem tomadas. A partir daí podem ser indicadas atividades físicas regulares e técnicas de relaxamento para auxiliar os sintomas. Buscar o departamento de Recursos Humanos da empresa pode ser uma opção para reavaliar as tarefas e melhorar o quadro de estresse.

Atenção: medicamentos e relaxamento são importantes no auxílio do tratamento, mas sozinhos não ensinam novos comportamentos, novas relações mais saudáveis como o trabalho. A melhora definitiva virá com o processo da psicoterapia que questionará os possíveis caminhos e mudanças para relações individuais de trabalho mais saudáveis.

Até a próxima!

Abraço.

Ana Carmen Oliveira é Psicologa, Terapeuta Comportamental e Coach.

Doutora em Ciências Comportamentais (UnB) e mestre  em Análise do Comportamento (PUC-SP). Membro da Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental. Personal e Professional Coach formada pela Sociedade Brasileira de Coaching.

E-mail: anacarmenoliveira@gmail.com

Depressão e Estresse Crônico

Publicado em 12/02/2014

Você sabia que a presença constante de situações desagradáveis em que a pessoa tem pouco ou nenhum controle pode culminar em um estado depressivo?

Pois é, não é preciso algo extremamente perturbador, como a morte de um filho ou conjuge para desenvolvermos depressão. Diversos estudos sobre Chronic Mild Stress, CMS (Estresse Crônico Moderado) nos mostra que a depressão também é produzida pelo acúmulo de pequenas situações estressantes que sozinhas não teriam um efeito tão grande, mas que em conjunto e em condição em que não podem ser controladas pelo sujeito, levam ao quadro depressivo.

De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais  DSM, o sintoma principal da depressão é a anedonia. A palavra anedonia é derivada de hedonismo que vem do grego hedoné, que significa prazer. Ao contrário do hedonismo, que é a busca do prazer, a anedonia é a perda da capacidade de sentir prazer.

O modelo animal de depressão, CMS, expõe ratos a um protocolo de diversas condições consideradas aversivas e incontroláveis que se apresentam alternadamente, como barulho alto, privação de ração e água, luz acessa durante a noite e cheiro forte. Um dos testes é feito analisando-se a preferência dos animais pela ingestão de água doce em comparação à agua pura. No início do estudo, os animais ingerem mais água doce do que água pura, mas após 6 semanas de exposição ao protocolo, sua preferência é significativamente diminuída indicando redução da sensibilidade do organismo à recompensa - anedonia. Adicionalmente, foram observadas alterações na atividade geral, no comportamento investigativo e no peso dos animais.

A boa notícia é que esse quadro pode ser revertido tanto com medicação quanto com “trabalho” – ou seja, com a exposição dos sujeitos à situações em que ele exerce algum controle sobre o ambiente. Alguns ratos foram tratados com medicamento e outros foram submetidos a essas situaçoes de controle durante ou após a exposição ao protocolo (ex. ao pressionar uma barra, eles recebiam ração ou acesso a roda de atividade). Foi observado que os animais expostos às condições de controlabilidade se recuperaram do quadro de anedonia,  perda de peso e atividade geral, na mesma  proporção dos que usaram medicamento.

Claro que não podemos fazer uma comparação direta com a vida humana. Mas os modelos animais são utilizados por cientistas para ilustrar ou investigar aspectos da psicopatologia humana. Tem como proposta fazer simulações com o objetivo de investigar aspectos específicos da depressão, permitindo a observação de características comportamentais que reproduzem aspectos da situação clínica. “Homens não são ratos”, mas a interpretação desses estudos nos oferece evidencias de como interações com o ambiente podem influenciar o quadro depressivo, seja na instalação quanto na recuperação. Como disse a cordenadora do programa de Análise do Comportamento da PUC-SP  "Viver num ambiente em que situações desagradáveis aconteçam sem aviso pode ser um desencadeador da depressão. Por outro lado, para uma pessoa já deprimida, trabalhar, para aquilo que é recompensador, mesmo que pouco, ajuda a curar a doença mais rápido".

Até a próxima!

Abraço

Ana Carmen Oliveira é Psicologa, Terapeuta Comportamental e Coach.

Doutora em Ciências Comportamentais (UnB) e mestre  em Análise do Comportamento (PUC-SP). Membro da Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental. Personal e Professional Coach formada pela Sociedade Brasileira de Coaching.

E-mail: anacarmenoliveira@gmail.com

Depressão II

Publicado em 22/01/2014

Olá pessoal,

Eu já escrevi aqui sobre a caracterização da depressão: os principais itens são humor deprimido e diminuição do interesse ou prazer em realizar atividades (anedonia). Observações importantes também fazem parte desse quadro como ruminação (foco constante em eventos e sentimentos desagradáveis, recordação seletiva ou atenção para eventos negativos), expressões de desamparo, desesperança, insatisfação crônica, raiva, problemas de relacionamento social e pessoal, dificuldades no trabalho e abuso de substâncias, Os outros sintomas avaliados são diminuição geral do nível de atividade, agitação ou ansiedade, fadiga ou perda de energia, sentimentos de inferioridade e/ou culpa contínua acompanhados por autocrítica, ideação suicida, alterações de apetite (tanto ganho como perda de peso) e alterações de sono (tanto insônia como excesso de sono).

Falei também que apesar de ser mais comum a ocorrência de episódios isolados de depressão, ela pode ocorrer de forma crônica e ter sua intensidade variando de moderada a severa. A depressão é uma perturbação comum que mostra uma tendência ascendente nos próximos 20 anos.

Mas a coluna de hoje é curta porque quero chamar a atenção para o preconceito e a negligencia ao tratamento com uma tirinha que vale a nossa atenção e reflexão:

Depressão não é frescura e nem sinal de fraqueza. E vc, ainda vai tratá-la dessa forma ou vai buscar ajuda?

                             

Abraço,

Ana Carmen Oliveira é Psicologa, Terapeuta Comportamental e Coach.

Doutora em Ciências Comportamentais (UnB) e mestre  em Análise do Comportamento (PUC-SP). Membro da Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental. Personal e Professional Coach formada pela Sociedade Brasileira de Coaching.

E-mail: anacarmenoliveira@gmail.com

Dislexia, e aí?

Publicado em 06/12/2013

Normalmente eu mesma escolho o tema da coluna. A motivação pode vir dos mais diversos lugares. Mas hoje não. Esse tema foi encomendado. E topei na hora porque é muito pessoal para mim.

Eu tinha uns 6 anos, estava aprendendo a ler, quando a escola chamou meus pais para falar de um possível problema de aprendizagem. Fui à psicóloga, psicopedagoga, psicomotricista. Diagnóstico: dislexia. Eu trocava letras e números. Por exemplo, 6 e 9 não pareciam dois números diferentes. No máximo eu pensava que o 6 era apenas o 9 dormindo. Não conseguia entender a diferença entre p e b. Lembro-me até hoje da angústia que eu sentia quando minha mãe perguntava, “você vê que em uma barriga está para cima do pauzinho e em outra está para baixo?”. V e F soam o mesmo... como saber quando era para escrever um ou outro? E na hora de ler em voz alta na sala de aula? Que vergonha.... Eu lia tão devagar que depois fiquei tentando correr, o que atrapalhou mais a questão de pular palavras, ler errado ou criar outras que não estavam lá. Mas depois descobri que se colocasse entonação nas palavras, conseguiria ler melhor e com mais fluência! Lembro-me, já adolescente, quando lia na frente dos meus pais e, calmamente, meu pai corrigia: “minha filha, leia de novo porque não é isso que está escrito aí”. Claro! A palavra era outra, solidários virava solitários, degredada virava desgarrada e por aí vai. Confesso que faço isso até hoje e quando tenho que voltar no texto porque simplesmente não fez sentido, eu mesma dou risada das trocas. Lembro-me bem, fazendo um trabalho da faculdade, que eu escrevi “desinvíduo” várias vezes quando era para escrever “desenvolvimento do indivíduo”.

Quando pequena, sol e sal eram usados indiscriminadamente. “põe sol no meu ovo?”, “o sal está quente lá fora”. Coitado do sal, também era confundido com açúcar. Lembro-me da minha mãe colocando os dois na minha língua separadamente e falando os nomes corretos para eu aprender. E a falta de atenção e a dificuldade de concentrar? A vizinha da casa da frente contava para minha mãe que me via fazendo a lição de casa até passar o 1º ônibus ou o cachorro latir ou passarinho piar lá fora. Pronto! Lá ia eu para janela e esquecia completamente do que estava fazendo. Quando tinha uma tarefa longa, como subir, abrir o armário da minha mãe, pegar a carteira e tirar 10 cruzeiros (sim, cruzeiros na época), era constante eu ter que gritar, “mãe, o que era para pegar na sua bolsa mesmo?” Esquerda e direita, não vou nem falar! Ainda troco, mesmos que com menos frequência. Como disse uma amiga no trânsito, quando me pediu para entrar à direita e me viu dando seta para a esquerda: “Ana, a outra direita!”. Ainda hoje, se estou com sono, as trocas ficam mais frequentes. Eu digo que “o controle da tv está embaixo do sofá”. Quando a pessoa não encontra, eu vou lá, brava, pego o aparelho em cima do sofá e ainda digo: “eu falei que estava embaixo do sofá!” Pobre do outro que pacientemente diz: “isso é em cima”.

 Eu podia continuar a contar um monte de histórias. Mas acho que já abarquei vários dos sinais da dislexia.  Aí vão mais algumas outras dificuldades: orientação temporal (ontem, hoje, amanhã); copiar o que está escrito na lousa; soletração; planejamento e organização de tarefas e horários; compreensão de texto, prestar pouca atenção em detalhes, ou, por outro lado, prestar atenção demasiada em detalhes. Também ocorrem frequentemente a fala tardia, omissão, troca e aglutinação de grafemas, emissão oral melhor do que a escrita, atenção limitada e dificuldade em se manter na tarefa.

                Mas aí, depois de ler tudo isso, você pode se perguntar: o que eu faço com isso? Tem cura? Eu te respondo já.

Se você percebe uma dificuldade específica de leitura e escrita, deve procurar os profissionais especializados na área como psicólogo, fonoaudiólogo, psicopedagogo para que sejam realizadas avaliações pertinentes. Para não acontecer um falso diagnóstico, podem ser necessários alguns exames mais detalhados como audiometria, oftalmologia, processamento auditivo e visual e avaliação neurológica. Esse diagnóstico diferencial irá identificar se é uma dislexia propriamente dita, ou se é um atraso no desenvolvimento da leitura decorrente de outros fatores como uma deficiência sensorial ou atraso cognitivo. É comum também que a dislexia esteja associada a um quadro de transtorno de déficit de atenção. A avaliação médica é importante para a condução do tratamento nesse caso, que pode incluir uso de medicamentos.

A intervenção pode ser iniciada em qualquer idade. Não existe isso de “agora já é tarde”. Mas claro, quanto mais cedo for realizado o diagnóstico melhor, minimizando as consequências das dificuldades escolares e sociais.

Os tratamentos existentes irão dar à criança o apoio específico de acordo com suas necessidades. Além do suporte para as atividades escolares, ela vai aprender a aprender. Seus atrasos serão minimizados. Seu repertório acadêmico vai ser desenvolvido, iniciando um processo de autonomia para a vida prática e social.

                Qual o prognóstico? O céu é limite!

Por experiência própria posso dizer que há algumas barreiras. Barreiras internas, por exemplo, quando me sentia muito irritada comigo mesma por não conseguir algumas coisas, além dos medos normais de não dar conta. Mas a terapia e o apoio da família sempre me ajudaram a insistir e tentar ir mais longe. Mas, infelizmente, o disléxico também encontra barreiras externas como, por exemplo, quando uma coordenadora pedagógica disse aos meus pais, quando eu tinha uns 8 anos, que eu nunca teria capacidade de fazer uma faculdade, que era para os pais ficarem satisfeitos se eu terminasse o 2º grau. Ainda bem que meus pais não desistiram de mim, me trocaram de escola e continuaram a me oferecer o que era necessário para que eu ficasse academicamente independente, até que me formei em psicologia, fiz mestrado, doutorado e hoje trabalho no consultório, leciono e oriento outras pessoas em seus próprios mestrados. Mas meu limite definitivo eu ainda não encontrei  e espero não encontrar até o dia em que eu morrer.

A dislexia pode ocorrer em qualquer pessoa e não impedir seu próprio desenvolvimento e realização profissional e pessoal. O exemplo de algumas pessoas brilhantes podem te ajudar a pensar a dislexia como uma dificuldade e não como um limite. Dizem, à boca pequena, que também são (ou foram) disléxicos: Agatha Christie (sim, uma escritora!), Auguste Rodin, Franklin Roosevelt, Tom Cruise, Robin Williams, Cher, Whoopi Goldberg, David Murdock. 

O recado mais importante que eu quero dar aqui é o seguinte: Não abandone, não desista, não jogue o problema para frente. Encare, busque ajuda, aprenda como ajudar.

Abraço,

Ana Carmen Oliveira é Psicologa, Terapeuta Comportamental e Coach.

Doutora em Ciências Comportamentais (UnB) e mestre  em Análise do Comportamento (PUC-SP). Membro da Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental. Personal e Professional Coach formada pela Sociedade Brasileira de Coaching.

E-mail: anacarmenoliveira@gmail.com

            

PS: Deixo aqui a dica duas grandes instituições que podem te instruir sobre o assunto:

- A primeira é a ABD, Associação Brasileira de Dislexia, www.dislexia.org.br. Criada em 1983, para encontros, troca de informação e divulgação da dislexia. Em 1988, teve inicio as atividades do CAE, Centro de Avaliação e Encaminhamento, para atender a demanda dos pais e dos profissionais em busca de respostas e orientações mais concretas. Em 1999, iniciou-se o processo para coligação da ABD à IDA, International Dyslexia Association. Atualmente a ABD se coloca no Brasil como ponto de apoio às famílias e disléxicos. Seu público é constituído de disléxicos de todas as idades, familiares, professores, profissionais da área educacional e clínica, que podem contar com orientação direcionada, diagnósticos e encaminhamentos, cursos profissionais, oficinas, palestras e simpósios internacionais.

- A mais recente é a AND, Associação Nacional de Dislexia, www.andislexia.org.br. Criada em 2000, com a finalidade congregar fonoaudiólogos, psicopedagogos, psicólogos, pedagogos, médicos, profissionais de áreas afins, pais, disléxicos, instituições e associações que se dediquem ao aprofundamento dos estudos sobre dislexia. Tem os objetivos de promover o conhecimento e a compreensão do fenômeno da dislexia, através do aprofundamento dos estudos e de pesquisas científicas, assim como oferecer apoio profissional aos que se dedicam a este tema; promover palestras informativas e dinâmicas de grupos para pais e escolas; criar espaços de reflexão, estudo de casos e supervisão clínica para os profissionais das áreas de fonoaudiologia e psicopedagogia, acompanhar, opinar, oferecer subsídios e, se possível, colaborar na elaboração de projetos de lei, regulamentos, resoluções e procedimentos escolares em questões relacionadas à dislexia; promover o constante aprimoramento técnico e científico de seus associados mediante a sistemática obtenção e veiculação de novos conhecimentos, experiências e recursos clínicos para intervenção terapêutica; liderar a defesa das necessidades especiais e valorização pessoal das pessoas disléxicas, favorecendo a sua inserção na vida escolar, profissional e social; manter intercâmbio com entidades afins ou congêneres.

Como nos educar para a velhice

Publicado em 24/10/2013

A melhor época para pensar na velhice é quando se está na juventude. Assim é possível nos preparar e melhorar as chances de vivê-la bem! Conhecimento e planejamento são as palavras-chaves aqui.

Todos nós sabemos que o número de pessoas idosas tem aumentado no Brasil e no mundo e isso pode trazer alguns problemas se não nos prepararmos para o novo cenário. Segundo a Organização Mundial de Saúde a proporção de pessoas acima dos 60 anos deve triplicar entre 2007 e 2050, chegando a dois bilhões. Se considerarmos apenas a quantidade de pessoas acima dos 80, esse número deve quadruplicar para quase 400 milhões. Dois fatores parecem contribuir para esse cenário: a taxa de fertilidade está diminuindo e as pessoas têm vivido mais.

Acredito que o impacto que mais ouvimos discutir refere-se a questões econômicas.  Essa desproporção entre adultos economicamente ativos e idosos recebendo auxílio traz alguns problemas.  Haverá contribuintes o suficiente para sustentar todas as aposentadorias que devem ser pagas? Há adultos jovens para cuidar dos seus idosos? Se uma pessoa começar a trabalhar aos 20 anos e se aposentar aos 65, durante esses 45 anos, ela terá que fazer uma poupança suficiente para garantir uma renda por, pelo menos mais 20 anos sem salário. Para exemplificar de forma mais fácil vamos simplificar, sem considerar juros, 13º salario, inflação, promoções ou períodos de desemprego. Uma pessoa recebe R$5.000,00 mensamente, ao longo de 45 anos, dos 20 aos 65. Considerando que ela morra aos 85 anos, os 2 milhões e 700 mil reais recebidos em 45 anos terão que ser suficientes para as despesas ao longo de 65 anos. Se dividirmos esse recebimento total pelos 65 anos, o valor disponível mensal será de $3.462,00 reais. Será que essa pessoa usa apenas R$3.500,00 por mês para despesas, férias, compra da casa, etc e guarda os R$1.500,00 restantes para dispor de R$3.500 mensais dos 65 aos 85 anos?

Mas a renda é apenas um dos aspectos a serem considerados na qualidade de vida das pessoas durante a velhice. Também são avaliadas outras áreas fundamentais como saúde subjetiva – estado de saúde de uma pessoa em comparação com outras da mesma idade, autonomia, apoio social, entre outras.

Do ponto de vista médico, a qualidade de vida está ligada a longevidade, funcionalidade, boa saúde física e mental. Uma boa qualidade de vida garante uma velhice digna ainda que com patologias severas.

Do ponto de vista psicológico, a qualidade de vida é avaliada não somente pelos eventos objetivos, mas também por questões mais subjetivas como satisfação, como a própria pessoa avalia sua velhice, senso de realização, motivação e avaliação própria das suas competências sociais e cognitivas. O bem-estar psicológico da pessoa idosa depende também da sua flexibilidade para adaptar-se às perdas e recuperar-se de eventos estressantes.

Os pesquisadores costumam dizer que a pessoa envelhece do jeito que se viveu. Quanto mais satisfação durante a vida adulta, maior a chance de uma boa velhice.  Melhorar o autoconceito, diminuir crenças/limitações irracionais sobre a velhice. Descobrir potencial, aprender a lidar melhor com eventos estressores. Ser mais assertivo, aprender a dizer “eu gosto ou não disso”, “eu prefiro”, “eu não gostaria”, aprender a pedir favores e a saber agradecer, aprender a negar pedidos abusivos. Aprender a buscar seus próprios reforçadores identificando atividades prazerosas.  Aceitar melhor suas limitações e agir para melhorar o que pode ser melhor.

Preparar-se bem para a velhice é trabalhar, enquanto jovem, em todos esses aspectos. Entender a velhice como mais uma etapa da vida que tem suas próprias demandas e alegrias.

Até nosso próximo encontro!

Ana Carmen Oliveira é Psicologa, Terapeuta Comportamental e Coach.

Doutora em Ciências Comportamentais (UnB) e mestre  em Análise do Comportamento (PUC-SP). Membro da Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental. Personal e Professional Coach formada pela Sociedade Brasileira de Coaching.

E-mail: anacarmenoliveira@gmail.com

Autoconhecimento e Consciência

Publicado em 02/09/2013

Por que eu faço o que eu faço? Acredito que essa seja a pergunta principal que leva muitas pessoas à terapia. E por “fazer”  eu me refiro a agir, pensar, sentir, falar. O caminho que se percorre para responder a essa pergunta pode ser longo, mas é certamente muito enriquecedor. É o tão famoso autoconhecimento. Quando alguém aprende a identificar e descrever O QUE ela faz e aprende também a identificar e descrever PORQUE ela faz, quais as variáveis controlam seu comportamento, então é possível dizer que agora ela o faz conscientemente.

                O senso comum costuma ter como regra que o para se desenvolver autoconhecimento é preciso isolamento. Entendo que isso pode ser verdade no sentido que as vezes precisamos nos afastar para conseguirmos olhar para nós mesmos. Mas a consciência somente ocorre a partir da interação social. A palavra consciência vem o Latim com-science que signifca co-conhecimento, ou seja, conhecimento com o outro. Consciencia de si é portanto conhecimento de si mesmo com os outros.

                O primeiro passo da jornada do autoconhecimento é aprender a se observar e por mais estranho que possa parecer, é a comunidade que ensina o indivíduo a se conhecer. “Ser consciente, como uma forma de reagir ao seu própriocomportamento, é um produto social” (Skinner, 1999, p.425).

                A comunidade contribui para o autoconhecimento quando utiliza estratégias para ensinar autodescrição e incentiva tal comportamento. No livro Ciência e Comportamento Humano, Skinner descreve três estratégias da comunidade para acessar indiretamente o mundo encoberto do outro, ou seja, aquele que está dentro da pele do outro: a primeira delas é observar os eventos correlatos, como ver um corte na mão da criança e então dizer a ela que isso dói. A segunda entratégia é inferir um comportamento encoberto por meio de outros comportamentos colaterais como dizer que a criança sente sede ao vê-la bebendo água vorazmente. A terceira é utilizar metáforas usando palavras que designam características de eventos conhecidos para descrever os eventos encobertos, como quando se diz que o pé está formigando referindo-se a sensação no pé como se várias pequenas formigas estivessem caminhando ali.

                Pais e educadores tem importante papel nessa cruzada. Desde pequena, a criança os ouve perguntar: O que você está fazendo? Está doendo? O que você vai fazer? Você gostou, ficou feliz? O que aconteceu que te fez chorar? Essas aparentemente inocentes  perguntas vão ensinado o indivíduo a olhar para si mesmo, ensinando-o a reconhecer sentimentos, emoções e assim nomeá-los.      

                Ainda que não este seja o único objetivo da terapia, ela tem o importante papel de desenvolver e refinar a auto-observação e o autoconhecimento. Ensinar a pessoa a identificar o que ela faz e porque o faz. Além de olhar para si, a pessoa vai, conjuntamente,  aprendendo a olhar para o que a cerca. Buscar no ambiente os eventos que a faz sentir, pensar, fazer ou falar tais ou tais outras coisas. A pessoa passa a observar e identificar melhor as relações entres eventos, distrinchar relações entre determinantes do comportamento. Além de viver as contingências, ela aprende a analisá-las. É a partir dessa análise que a pessoa poderá pensar em possíveis mudanças, agora com consciência das consequências de suas escolhas. Com o autoconhecimento é possível partir para a construção de novos repertórios comportamentais e capacitar o indivíduo a solucionar sozinho seus problemas.

Abraço e até a próxima!

Ana Carmen Oliveira é Psicologa, Terapeuta Comportamental e Coach.

Doutora em Ciências Comportamentais (UnB) e mestre  em Análise do Comportamento (PUC-SP). Membro da Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental. Personal e Professional Coach formada pela Sociedade Brasileira de Coaching.

E-mail: anacarmenoliveira@gmail.com

 

Você sabe o que é Apatia Social

Publicado em 16/07/2013


"Nos barracos da cidade

ninguém mais tem ilusão

No poder da autoridade

De tomar a decisão

E o poder da autoridade

Se pode, não faz questão

Se faz questão, não consegue

Enfrentar o tubarão”

 

Liminha e Gilberto Gil, Nos barracos da Cidade.

 

            O momento que o país está passando me lembrou de um trabalho sobre Apatia Social que fiz, em 2008, na época no doutorado, juntamente com minha colega Alessandra Souza (não publicado).

            Os termos apatia e fatalismo foram bastante utilizados nos séculos XIX e XX para explicar aspectos da vida cotidiana em culturas pré-industriais. O termo apatia é derivado do Grego “pathos” que significa paixão. A palavra apatia indica, portanto, falta de paixão.

            O fenômeno da apatia é caracterizado pela diminuição das atividades dirigidas a uma meta. Há falta de motivação, de interesse, geral ou direcionado à aprendizagem de novos conhecimentos ou experiências, além de uma despreocupação consigo mesmo. Também se observa falta de produtividade, esforço e iniciativa, diminuição das socializações, aumento dos comportamentos de submissão ou dependência. Além disso, nota-se a falta de reações emocionais frente a surpresas positivas ou negativas, falta de planejamento afetivo e de excitação.

            O termo fatalismo refere-se ao discurso de uma pessoa a respeito da sua sensação de dissociação entre o que ela faz e os eventos ambientais seguintes. Por exemplo: “não importa o que eu faça, meu chefe sempre diz que meu trabalho não está bom” ou de forma mais abrangente: “não importa em quem eu vote, o país sempre é mal governado”.

            Mas como isso acontece?

            Primeiramente, devemos lembrar que para entender um comportamento, analisamos tanto a condição presente de uma pessoa quanto sua história. O comportamento é uma consequência ou um efeito para a qual devemos procurar as condições ambientais, isto é, as condições materiais, culturais e psicológicas das quais o comportamento é função. Segundo o analista do comportamento B.F. Skinner (1904/1990) o comportamento social é definido como o comportamento de uma pessoa em relação a outra ou os comportamentos das pessoas conjuntamente em relação ao ambiente comum.

            Suponha dois indivíduos em interação – Maria e João.

- João pisca para Maria. O comportamento de João sinaliza a disponibilidade de uma consequência amistosa para possíveis comportamentos de Maria.

- Maria sorri para João. O comportamento de Maria é consequência para a piscada de João. Mas é também sinalizadora da disponibilidade de outras consequências amistosas para o próximo comportamento de João.

- João se aproxima de Maria. O comportamento de João é consequência do sorriso de Maria. Mas também sinaliza a disponibilidade de uma consequência para a próxima resposta de Maria.

            E assim sucessivamente.

            O comportamento social ocorre porque um indivíduo é importante para o outro como parte de seu ambiente. No que chamamos de relação contingente, a mudança ambiental que segue um comportamento é produto dele. Essa relação de dependência entre os eventos e/ou comportamentos é uma contingência. O sorriso de Maria foi contingente à piscada de João. A aproximação de João foi contingente ao sorriso de Maria.

            O comportamento social é uma complexa rede de interações como a ilustrada acima. Contudo nem todas as interações sociais são tão diretas e claras. Algumas relações podem se estender por longos períodos de tempo. Quando, por exemplo, o indivíduo solicita um documento em uma instituição e o seu pedido leva a uma série de respostas de outros indivíduos de busca e preparação da resposta e apenas após um período de espera de meses, ocorre tal consequência final, que seria obter o documento. Nesse caso a relativa distância temporal entre a 1ª ação (solicitar) e a consequência (receber) além da característica probabilística de algumas relações podem enfraquecer as relações de contingência.

            Dentro de culturas com estruturas sociais altamente complexas as contingências sociais geralmente se tornam pouco claras ou difusas. As ações individuais podem parecer pouco significativas para controlar eventos, sejam eles bons ou ruins. Nessa situação, pode-se supor que os indivíduos estejam experienciando situações de incontrolabilidade. A apatia é um dos efeitos da exposição à situação de incontrolabilidade.

            As pesquisas mostram que os sujeitos que foram expostos a uma história de incontrolabilidade, ou seja, em que suas ações não alteravam o ambiente, quando são colocados agora numa situação de controlabilidade em que suas ações gerariam alterações no ambiente, não aprendem ou tem significativamente maior dificuldade para aprender um novo comportamento, para identificar novas relações de contingência. Diferentemente do que se pode pensar, não é a simples exposição a uma situação aversiva que produz o fracasso da aprendizagem do novo comportamento, mas a exposição a um evento aversivo que é incontrolável.     Para ilustrar como uma experiência de incontrolabilidade poder levar a comportamentos de apatia e fatalismo, vou apresentar a história real da fazenda Vicus, no Peru, como foi contada por Kunkel em 1991.

            Vicus era comunidade camponesa do Peru onde os comportamentos de apatia e fatalismo permeavam grande parte das relações sociais. Como principal causa desses comportamentos foi aventada a ausência de relações de contingência entre as atividades de trabalho dos camponeses e os eventos que os atingiam. O trabalho é uma atividade que deve envolver formas de organização com o objetivo de produção dos bens necessários, está na base das relações humanas, determinando e condicionando a vida. As relações de trabalho (divisão e organização), a qualidade dos instrumentos e os meios disponíveis para a produção de bens materiais, compõem a base econômica de uma sociedade.

            Na fazenda Vicus, as relações de trabalho eram comprometidas. O trabalho dos camponeses na agricultura e em serviços domésticos não era remunerado. A agricultura de subsistência era taxada, sendo necessário entregar ao patrão grande parte da colheita. Dessa forma, a colheita da fazenda era relativamente pobre, bem como a dos camponeses nas terras cedidas para a plantação de subsistência. Os habitantes de Vicus estavam expostos a uma situação de incontrolabilidade, em que os comportamentos de engajamento no trabalho não eram recompensados, de forma que trabalhar muito ou pouco não produzia consequências específicas.

            Foi nesse cenário que o antropólogo Holmberg comprou a fazenda e implantou mudanças substanciais nas relações de trabalho. O trabalho passou a ser remunerado, a qualidade das sementes melhorou e novos métodos de plantio e colheita foram estimulados. O pagamento dos aluguéis foi estipulado de forma que a colheita de subsistência fosse suficiente para arcar com as despesas e ainda restasse o bastante para a família se manter. No primeiro ano os trabalhadores apresentaram muita resistência às mudanças. Poucos participaram das atividades. Todavia, à medida que a colheita melhorava e também a situação dos camponeses, cada vez mais famílias aderiram ao programa sendo que, ao final de quatro anos, a maioria da população estava envolvida. As mudanças estabelecidas por Holmberg produziram uma situação de controlabilidade que tornou recompensados os comportamentos de engajamento no trabalho.

            Sistemas político e educacional também foram implantados com a transferência gradual do controle das instituições para os camponeses. Após 10 anos, os comportamentos de apatia e fatalismo haviam desaparecido. Este projeto ilustra como estes comportamentos socialmente inadequados podem ser modificados pelo estabelecimento de contingências claras entre os comportamentos e os eventos que o seguem. Portanto não é de surpreender que os comportamentos de apatia e fatalismo tenham desaparecido ou ao menos diminuído significativamente.

            Deixo aqui algumas perguntas para você:

-  Como podemos abandonar a apatia e o fatalismo em nossas vidas pessoais?

- Como podemos contribuir para o fim da apatia e fatalismo daqueles com quem convivemos?

-  Quais os mecanismos disponíveis para que os cidadãos possam se livrar a apatia social e fatalismo visando ao estabelecimento de um sistema onde o povo e os detentores do poder trabalhem em projetos comuns para uma sociedade mais justa e ética?

Abraço e até a próxima!

 

Ana Carmen Oliveira é Psicologa, Terapeuta Comportamental e Coach.

Doutora em Ciências Comportamentais (UnB) e mestre  em Análise do Comportamento (PUC-SP). Membro da Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental. Personal e Professional Coach formada pela Sociedade Brasileira de Coaching.

E-mail: anacarmenoliveira@gmail.com

Vamos aprender a reconhecer o Transtorno Obsessivo-Compulsivo

Publicado em 13/06/2013

O Transtorno Obsessivo-Compulsivo ou TOC é um dos diagnósticos psiquiátricos mais comuns. Os estudos epidemiológicos apontam uma prevalência do TOC em 2% a 3% da população geral. Sua ocorrência só é menor do que a depressão e as dependências químicas. Mas afinal, o que é o TOC e como reconhecer e cuidar?

Vamos primeiramente entender o que são obsessões e compulsões?

Obsessões são pensamentos, ideias ou imagens recorrentes, incontroláveis e de conteúdo indesejável que perturbam o indivíduo. Trazem medo, desconforto, vergonha e culpa. As obsessões podem vir na forma de pensamentos (acreditar que se lavar as mãos repetidamente nada de mal vai acontecer à família), imagens (imaginar o carro capotando), impulso (sentir que atropelaria a pessoa desconhecida parada na calçada) ou frases (será que está limpo?).  As obsessões podem ser ruminações, dúvidas, medo de perder o controle de suas próprias ações. Seu conteúdo pode ser relacionado a uma infinidade de temas como contaminação, simetria, número, sexo, morte.  A maioria das pessoas que apresenta esse quadro reconhece que muitas vezes suas obsessões parecem absurdas, exageradas ou sem sentido, guardando alguma crítica sobre sua condição, mas, ainda assim, não conseguem evitá-las apesar dos esforços.

As compulsões do TOC são os comportamentos estereotipados e repetidos. Suas funções seriam eliminar, adiar, atenuar ou evitar uma situação que o indivíduo percebe como aversiva, muito desagradável, ou perigosa.  Mas, na verdade, na maioria das vezes não há relação objetiva entre a compulsão (ex. lavar as mãos repetidamente) e as consequências que seriam produzidas (ex. evitar que algo de ruim acontecesse com a família). Então, por que a pessoa continua a emitir o comportamento compulsivo? O que acontece é que o indivíduo está numa situação que percebe como extremamente aversiva (acreditar que seus familiares vão morrer – ainda que outros não vejam dessa maneira) e ao completar seu ritual compulsivo, ainda que custoso (lavar as mãos várias vezes), sente-se aliviado, com menos medo ou menos ansioso. Um ponto que diferencia o TOC de um cuidado ou zelo comum é reação desproporcional entre o estímulo aversivo, o risco real e o ritual de neutralização (ou prevenção, se for o caso).

O que faz uma pessoa desenvolver o TOC?

Não há um conjunto circunscrito de causas. Mas a ciência de hoje já identificou alguns componentes que propiciariam seu surgimento. Um dos fatores é a predisposição genética. Observa-se que há maior incidência de TOC entre parentes consanguíneos. Mas como a herança genética não é algo que se pode ser determinado, não há motivos para fazer acusações de responsabilidade ou culpa. Outro ponto levantado é que algumas pessoas portadoras de TOC apresentam alterações anatômicas ou funcionais no Sistema Nervoso Central – mas é importante ressaltar que alguns portadores de TOC que participaram de estudos clínicos não apresentaram essa alteração. Quanto aos fatores ambientais, observou-se que eventos vitais aversivos podem precipitar os sintomas naqueles que já possuem uma predisposição genética. Assim, o ponto mais importante, é saber que pessoas geneticamente menos vulneráveis e com melhor repertório comportamental de enfrentamento lidam melhor com os estressores e são pessoas menos suscetíveis a surgirem transtornos de comportamento.

Como cuidar?

O tratamento do TOC mais adequado é realizado com o acompanhamento de uma dupla de profissionais especializados Psicólogo-Psiquiatra. A terapia com um psicólogo e a fármacoterapia com o médico psiquiatra tem mecanismos de ação distintos e complementares.

O psiquiatra poderá prescrever medicamentos psicofármacos que irão interferir nas funções do sistema nervoso central, SNC, reduzindo o desconforto provocado pelos sintomas. Contudo, apesar do inicial alívio do sofrimento, medicamento não ensina comportamento e raramente a pessoa fica assintomática apenas com o uso do medicamento.

A terapia comportamental irá envolver análise das contingências que deram origem às obsessões e que as mantém hoje. Esse conhecimento já é um primeiro passo para enfraquecê-las. O indivíduo entende que se um comportamento foi aprendido e há uma contingência aversiva que o mantém, esse comportamento agora pode ser eliminado, surgindo espaço para novos comportamentos mais adequados, desde que determinadas alterações nas contingencias atuais sejam feitas. Por isso a orientação familiar tem se mostrado muito importante, já que age como facilitadora dessa reorganização das contingencias atuais. Outro ponto crucial da terapia é o desenvolvimento do repertório comportamental do indivíduo, habituando-o a interagir com novas pessoas, em novas situações, engajando em atividades adequadas com consequências reforçadoras.  Nesse sentido, o treino de habilidades sociais é um instrumento importante para compor a terapia.

Em alguns casos, recomenda-se um procedimento específico denominado Exposição com Prevenção de Respostas, EPR. No procedimento de EPR é feita a exposição planejada, gradual e progressiva do indivíduo aos estímulos aversivos relacionados à suas obsessões e compulsões, ao passo em que é feita também a prevenção das respostas ritualistas que ele costumava fazer. A racional da EPR é que o contato progressivo com esses estímulos aversivos, sem ocorrer a emissão dos rituais, produzirá a habituação emocional a esses estímulos e as pessoas agora teriam condições de entrar em contato com contingências que operam sobre a vida da mesma forma que os não portadores de TOC. Mas nem sempre a EPR é possível, como por exemplo, quando o comportamento compulsivo é privado (só a própria pessoa tem acesso), quando as obsessões não são passíveis de verificação (a crença que irá para o inferno se não fizer tal coisa) ou quando ainda o estimulo menos incomodo gera muita ansiedade. Cabe ao psicólogo analisar a melhor conduta de cada terapia levando em consideração a história e o quadro atual de cada um.

Se você se identificou com o que foi explicado sobre o TOC ou conhece alguém que se encaixa nessas características, busque ajuda. Procure na sua cidade a indicação de um psicólogo competente, especializado e experiente no assunto.

Abraço a todos e até a próxima!

Ana Carmen

Dra. Ana Carmen Oliveira é Psicóloga, Terapeuta Comportamental e Coach.

Doutora em Ciências Comportamentais (UnB) e mestre em Análise do Comportamento (PUC-SP). Membro da Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental. Personal e Professional Coach formada pela Sociedade Brasileira de Coaching.

Atende adultos e crianças acima de 12 anos em consultório particular em SP.

E-mail: anacarmenoliveira@gmail.com

Como está sua comunicação com as crianças e adolescentes?

Publicado em 24/04/2013

Educador, você acha que se comunica bem com seus educandos?

Será que eles entendem o que você quer dizer?

Será que você entende o que eles dizem para você?

Hoje vamos falar um pouco sobre comunicação. O assunto é vasto, portanto aqui será apenas uma pincelada. Mas ao final dessa coluna, dou duas dicas de leitura para quem quiser aprofundar.

O que você responderia quando alunos te dissessem as seguintes frases:

- Não sei fazer isso que você me pediu.

-  Odeio essa matéria, é muito chato!

-  Não consigo fazer o exercício!

- Arranhei o joelho, tá doendo...

- Eu odeio você.

Na maioria das vezes, um ouvido destreinado vai nos fazer responder:

- Sabe sim, eu já te ensinei.

- Não é nada chato. Se você tivesse aprendido direito não diria isso.

- Consegue sim, basta prestar atenção, é não é complicado.

- É só um machucadinho, isso não dói, pode parar de chorar.

- Eu também não sou seu fã, mas você vai ter que me aguentar até o final do ano.

Parece inofensivo, não é mesmo? Mas cuidado, pode ser danoso!

A comunicação abrange tanto os comportamentos não verbais como olhar, expressão facial e gestos e quanto os comportamentos verbais que envolvem tom de voz, volume, fluidez, velocidade e clareza das informações. Além do conteúdo prático a ser exposto, uma boa comunicação deve trazer também a expressão genuína e relativamente direta de pensamentos e sentimentos do falante assim como levar em consideração os sentimentos e bem estar do ouvinte, sempre de forma socialmente apropriada, considerando-se suas particularidades como idade e cultura.

Muitas vezes a relação entre educadores e alunos é conflituosa porque a comunicação entre eles é precária. Não é incomum que seja até agressiva, fazendo com que salas de aulas pareçam ringues de luta em que ambos podem acabar sendo desrespeitosos.

O educador, em sua função, serve como modelo de atitudes e valores para seus alunos. Sua forma de se relacionar com o mundo poderá inspirar e motivar ou servir como exemplo de desconsideração, impaciência, falta de respeito e até falta de compromisso.

Para ser um educador, é necessário que o professor conheça mais do que o conteúdo da sua matéria lecionada. É preciso que entenda das características, habilidades e anseios específicas de cada idade. É preciso aprender a despertar o interesse, a curiosidade e saber motivar.

Pensando em tudo isso, como você reavaliaria aquelas respostas?

De pronto já percebemos que elas desqualificam e desconsideram os sentimentos e as opiniões do aluno. Quando o aluno disse que achava a matéria chata, o professor desqualificou e repreendeu a expressão de sua opinião. Com a boa intenção de fazer com que o aluno se sinta capaz, ou seja, mais dedicado, acabamos passando a mensagem de que o que ele percebe, pensa ou sente está errado ou não é importante. Ter seus sentimentos negados deixa qualquer um desmotivado – até os adultos! Já quando a criança ou o adolescente se sente reconhecido, acolhido e respeitado em suas opiniões e sentimento, abre-se um canal de comunicação valioso em que ambos encontram espaço para se expressar, concordar, discordar e até aceitar o desacordo. O aluno se sente mais motivado e aprende a lidar com as suas dificuldades e sofrimentos.

Mas, se não fomos educados com essa atenção, como fazer com nossos alunos e filhos?

Temos que aprender, nos reeducar para educar melhor!

Que tal montar um grupo de discussão de educadores para auxilar nessa tarefa?

Deixo aqui 2 dicas de livros que podem auxilar nesse grupo.

E depois reveja, como você responderia para aqueles alunos de forma a considerar suas opiniões, sentimentos e até motivá-los a seguir em frente?

Dica 1: Como falar para o aluno aprender. Autoras: Adele Faber e Elaine Mazlish (autoras do livro Pais Liberados, Filhos liberados)

Imagem da capa original em Inglês e da versão traduzida para o Português.

 

Dica 2: Como falar para seu filho ouvir e como ouvir para o seu filho falar. Autoras: Adele Faber e Elaine Mazlish.

Imagem da capa original em inglês e da versão traduzida para o Português.


 

Um abraço,

Ana Carmen

Dra. Ana Carmen Oliveira é Psicóloga e Coach. Doutora em Ciências Comportamentais (UnB) e mestre em Análise do Comportamento (PUC-SP). Personal e Professional Coach formada pela Sociedade Brasileira deCoaching. Membro da Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental.

Atende adultos e crianças acima de 12 anos em consultório particular em SP.

E-mail: anacarmenoliveira@gmail.com

 

Depressão

Publicado em 04/04/2013

 

Estudantes: vamos falar de depressão?

Pode parecer estranho falar de depressão nessa fase da vida em que se está estudando, investindo no futuro, se desenvolvendo e buscando conhecimentos. Mas, infelizmente, esse quadro não é raro.

A Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais (Andifes) apresentou no Fórum Nacional de Pró-Reitores de Assuntos Comunitários e Estudantis (Fonaprace) uma pesquisa mostrando que quase metade dos estudantes das instituições federais de ensino superior (Ifes) passa por alguma dificuldade emocional. Enquanto a depressão atinge 4% da média geral entre jovens de até 25 anos, esse número sobe para 15% entre os estudantes universitários. Segundo o estudo realizado pelo psicólogo Marcelo Tavares, professor da Universidade de Brasília (UnB), pelo menos 5,5% desses estudantes faz uso de medicação psiquiátrica e 24% já procuraram ajuda psicológica. Estima-se que entre 10 a 20% dos estudantes das universidades federais estejam em processo agudo de crise, que requer apoio psicológico imediato.

Uma das importantes causas para o desenvolvimento desse quadro depressivo parece ser a mudança da vida adolescente pra a vida adulta. O estudante pode se sentir confuso e inseguro com o caminho que está traçando. Novas cobranças, novas exigencias, pressão da família, dos professores, colegas e do próprio estudante em ter um bom desempenho e em trilhar o caminho certo para o sucesso. Com tanta pressão e ainda sem o repertório comportamental necessário para lidar com o estresse, o estudante pode se sentir mais irritado, desmotivado, perdido, com dificuldade de se concentrar, ter baixo desempenho academico. Pode sentir-se desamparado, incompetente e até desistir da faculdade. Buscar ajuda é fundamental e quanto mais cedo, menos sofrimento e mais rápido a melhora.

A Associação Americana de Psiquiatria (APA) no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV, 1994), caracteriza a depressão como um transtorno de humor. Para identificarmos um quadro de depressão, olhamos especialmente para 3 fatores: humor deprimido (tristeza), anedonia (perda de interesse em atividades que antes eram prazerosas) e diminuição geral do nível de atividade. Há ainda outros sintomas, entre eles, concentração diminuída, alterações do sono e de apetite, retração social, ansiedade, irritabilidade e ideia suicida. Nem todo quadro é igual, sua intensidade pode variar de moderada a severa. O mais comum é ocorrer episódios isolados de depressão, mas o distúrbio pode ocorrer também de forma crônica. Segundo o mais recente estudo apresentado pela Organização Mundial de Saúde (2001), a depressão afeta 121 milhões de pessoas em todo o mundo e é apontada como a principal causa de incapacitação. Faz parte do ranking das principais patologias do mundo ocupando o 2º lugar considerando-se a população entre 15 e 44 anos e o 4º lugar considerando-se todas as idades e ambos os sexos. A expectativa é que, devido ao seu acentuado crescimento, a depressão alcançará o 2º lugar no ranking em 2020. Segundo a OMS (2001), a depressão afeta pessoas de todos os sexos e de todas as idades, porém é mais comum em mulheres do que em homens. O Global Burden of Disease (Carga global de doenças) estima que 5,8% dos homens e 9,5% das mulheres irão sofrer um episódio de depressão em um período de 12 meses. Embora a incidência seja mais alta nas idades médias há um crescente reconhecimento da depressão durante a adolescência e o princípio da vida adulta.

No Brasil, segundo pesquisa realizada entre 1998 e 2002, na Universidade de Brasília, a depressão é responsável por 65% dos casos de afastamento de trabalho no país. No período estudado, o INSS gastou R$ 495 milhões apenas com as doenças depressivas.

O tratamento da depressão deve feito por um psicólogo competente na área. Caso seja necessário, ele poderá indicar um médico psiquiatra que vai fazer o acompanhamento medicamentoso.

Um abraço,

Ana Carmen

 

Dra. Ana Carmen Oliveira é Psicóloga e Coach. Doutora em Ciências Comportamentais (UnB) e mestre em Análise do Comportamento (PUC-SP). Personal e Professional Coach formada pela Sociedade Brasileira deCoaching. Membro da Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental.

Atende adultos e crianças acima de 12 anos em consultório particular em SP.

E-mail: anacarmenoliveira@gmail.com